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© 2020 por Rede de Pesquisa Clínica e Aplicada em Chikungunya (Replick)

Encontro Replick: desafios e tratamento da Chikungunya


Cerimônia de abertura do Encontro de Investigadores da Replick. Foto: Rogério Fiocchi

A Rede de Pesquisa Clínica e Aplicada em Chikungunya (Replick), iniciativa coordenada pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), realizou de 8 a 10 de janeiro o “Encontro de Investigadores da Replick”. O evento reuniu pesquisadores da Replick e diversos especialistas nacionais e internacionais, a fim de debater temas relativos às arboviroses no país e discutir a realização de estudos de tratamento e prevenção que possam ser adotados em futuro próximo.


A abertura da encontro, no Hilton Hotel do Rio de Janeiro, contou a presença do representante do Ministério da Saúde, o diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis (DEIDT/SCTIE/MS), Julio Croda.


Também participarão da cerimônia o representante da Fundação Oswaldo Cruz, Rivaldo Venâncio, o consultor da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS), Carlois Melo, a diretora do INI/Fiocruz, Valdiléa Veloso, da representante do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit/MS), Livia Vinhal, o coordenador da Replick, André Siqueira e o representante National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIH/NIAID), Mark Challberg.

Julio Croda. Foto: Rogério Fiocchi

Julio Croda destacou que em 2019 o Ministério da Saúde fez o maior investimento em doenças negligenciadas e que o desenvolvimento de uma vacina para Chikungunya é uma prioridade. “A pasta está aberta para discutir recursos, desenvolvimento e testagem da imunização”, disse


Ao abordar a situação das arboviroses urbanas transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, Croda alertou que em 2020 a previsão é que a epidemia se concentre no Nordeste, uma vez que os dados epidemiológicos coletados mostram uma constante circulação do vírus nesta região, mesmo no período interepidêmico.


A diretora do INI/Fiocruz, Valdiléa Veloso, ressaltou que “a Replick será um modelo para nosso país no campo da pesquisa clínica, ao envolver diversas instituições e manter uma forte articulação com o Ministério da Saúde”. Destacou, ainda, o perfil inovador da Rede, salientando que “as descobertas obtidas sobre a Chikungunya serão implementadas quase que imediatamente pelo sistema de saúde brasileiro, gerando assim benefícios rápidos e diretos para a nossa população”.


Rivaldo Venâncio, representante da Fiocruz, reconheceu o esforço do INI/Fiocruz em estruturar o projeto multicêntrico, “A Chikungunya é uma doença inquietante. Imaginávamos que a conhecíamos e a cada dia ela apresenta uma surpresa, seja no espectro clínico da infecção, seja na gravidade por ela causada e, sobretudo, em relação aos fatores envolvidos na persistência das formas crônicas”, destacou.

Desafios e desenvolvimento da Replick

André Siqueira, coordenador da Replick, lembrou que os desafios que a iniciativa enfrenta são múltiplos. “A cronificação/complicação da doença, como tratá-la de forma mais efetiva ou quais as consequências da infecção, não sabemos ainda. Quando começamos a fazer uma discussão mais ampliada sobre os casos, com base nas diferentes vivências ambulatoriais, pensamos na infecção ósseo-articular e musculoesquelética por conta das questões da dor, além dos edemas e inflamações causados pela Chikungunya”, explicou.


André Siqueira. Foto: Rogério Fiocchi

De acordo com Siqueira, ao aprofundar os estudos, percebeu-se que há também sintomas de rigidez, fadiga crônica, além de impactos em outros aspectos da vida dos pacientes, como: psicológico, social, capacidade funcional e laboral do indivíduo e sua qualidade de vida. Destacou, ainda, que a Replick espera apresentar, ao longo do estudo, melhores estratégias terapêuticas, medicamentosas ou não, para tratar os pacientes, entender a gravidade da doença, compreender a dinâmica da transmissão, seu espectro clínico e os fatores associados ao óbito.


A coordenadora de Estudos Clínicos da Replick, Giselle Duarte, informou que 11 centros de pesquisa em nove estados brasileiros (Amazonas, Bahia, Ceará, Mato Grosso do Sul, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rondônia e São Paulo) estarão aptos, a partir de fevereiro de 2020, para o recrutamento de pacientes que farão parte das pesquisas. Ao todo, serão 8 mil participantes selecionados, sendo 2 mil com diagnóstico positivo para a doença e outros 6 mil negativos, os quais serão também investigados e terão amostras coletadas para inclusão no biorrepositório/biobanco da Rede.


Após a cerimônia de abertura foram iniciadas as sessões de palestra e discussões.

Desafio das arboviroses

Os representantes do NIH/NIAID, Jean Patterson e Mark Challberg, explicaram que o NIAID apoia pesquisas básicas e aplicadas para prevenir, diagnosticar e tratar doenças infecciosas, incluindo HIV/Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis, arboviroses, tuberculose, malária, entre outras. O volume de financiamento do NIAID cresce gradativamente ao longo dos anos e pesquisadores que queiram desenvolver estudos pré-clínicos de vacinas podem apresentar suas propostas para a instituição.


Na busca por novas vacinas, o NIAID quer ampliar suas parcerias com centros de pesquisa de doenças infecciosas emergentes de três grandes regiões mundiais: o Brasil, por conta das constantes epidemias de arboviroses, centro-oeste da África e sudeste asiático.


A Global Research Collaboration for Infectious Disease Preparedness (GloPID-R), grupo de trabalho parceiro da Replick, apresentou o andamento de estudos clínicos envolvendo os vírus da Chikungunya, O'nyong-nyong e Mayaro. Laura Pezzi, Secretária Científica da GloPID-R, falou sobre o papel da GloPID-R, rede de organizações que financia pesquisas na área de doenças infecciosas, reunindo 28 agências de fomento.


A rede congrega esforços em escala global, de modo a facilitar respostas eficientes a surtos significativos de doenças infecciosas novas ou recorrentes, que podem se tornar pandemias. No caso da Chikungunya, a instituição vem estudando a circulação da doença nas Américas desde 2013, coletando amostras de pacientes infectados para desenvolver ferramentas de diagnóstico mais eficazes para combater possíveis epidemias.


Fabrice Simon, do Laveran Military Teaching Hospital, na França, abordou as diferenças clínicas entre Dengue e Chikungunya e os desafios que se apresentam aos pesquisadores e profissionais de saúde no diagnóstico e tratamentos da doença.

O pesquisador apresentou pontos comuns das doenças que podem ser explorados nas pesquisas, de forma a buscar significantes reduções na letalidade da dengue e da morbimortalidade aguda e morbidade duradoura da Chikungunya.


O professor da Faculdade de Medicina São Leopoldo Mandic de Campinas, André Freitas, apresentou palestra sobre possível abordagem conjunta das arboviroses urbanas (Dengue, Zika e Chikungunya). Já o pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Ricardo Lourenço, falou sobre os aspectos entomológicos e epidemiológicos da Chikungunya.

Geraldo Pinheiro, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), abordou a importância do tratamento adequado das manifestações musculoesqueléticas da Chikungunya. “São inúmeros os desafios para as equipes de saúde no tratamento dos pacientes com a doença. A ausência de vacinas específicas ou medicamentos antivirais efetivos limita o atendimento”, disse. O professor destacou, ainda, a importância do acolhimento empático dos pacientes.


O pesquisador Hugh Watson, Evotec Infectious Diseases (França), falou sobre a experiência com tratamentos alternativos utilizando anticorpos monoclonais retirados do sangue de pacientes recuperados de Chikungunya. Encerrando o seminário, o chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica em Medicina Intensiva do INI, Fernando Bozza, apresentou sua experiência na condução de redes de pesquisa clínica envolvendo diversas instituições nacionais e internacionais.

Grupos de Trabalho

Foto: Rogério Fiocchi

O segundo dia do Encontro, 9/1, foi dedicado a formação de grupos para discussão e desenvolvimento de propostas nos seguintes tópicos: gravidade e sinais de alerta; epidemiologia/vigilância; terapêutica medicamentosa; terapias complementares; translacional; engajamento comunitário e comunicação; e gestão de biorrecursos (dados e amostra).


No período da tarde, os grupos apresentaram suas propostas e participaram de sessões de debate com os demais participantes do Encontro.

Foto: Rogério Fiocchi

Visitações

Visita UPA - Realengo

No terceiro dia, 10/1, participantes do Encontro fizeram visita in loco à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) - Realengo, bem como ao Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas- INI/Fundação Oswaldo Cruz e Ambulatório de Doenças Febris Agudas.


Participaram das visitas uma equipe do Ministério da Saúde, pesquisadores da Replick, do NIH/NIAID e do grupo de trabalho do GloPId-R. O objetivo era conhecer os locais de recrutamento e unidades de saúde que fazem parte do centro coordenador da Replick.

Foto: Rogério Fiocchi

Texto: Caroline Soares e Antonio Fuchs.

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